Feliz ano novo!

Quero compartilhar esta linda crônica do Rubem Alves com vocês. Um feliz reveillon, repleto de boas energias e gostosuras! Um beijo e até 2013!! 

Chef Thais Tezza



Culinária
A culinária consta de 2 partes. Primeira: fogo, fogões, panelas, caldeirões, azeite, óleo, água, conchas, colheres, facas, temperos, legumes, cereais, carnes, peixes, aves. Segunda: sopa, arroz com feijão, frango com quiabo e pimenta, moquecas, feijoadas, saladas, peixe na telha, assados, bifes, tomates recheados, aperitivos, sobremesas, bebidas.  A primeira parte não dá prazer. São ferramentas, matérias-primas, utensílios, em si mesmos sem gosto. Não há culinária sem eles. Mas eles não fazem a culinária. São apenas meios para a produção do objeto de prazer. Utensílios sofisticados e importados não bastam para que a comida seja boa. É preciso que haja a ação de um feiticeiro – Babette era uma feiticeira (veja o filme A festa de Babette), Tita era uma feiticeira (veja o filme Como água para chocolate) – cozinheiro. Culinária é feitiçaria. A segunda parte resulta de um ritual mágico de transformações: o banquete. O objetivo do banquete é servir felicidade – prazer e alegria – sob a forma de comida. Quem compreende a culinária é sábio. Na culinária se encontra tudo o que é para ser sabido sobre a arte de viver.
Penso que Deus deve ter sido um artista brincalhão para inventar coisas tão incríveis para se comer. Penso mais: que ele foi gracioso. Deu-nos as coisas incompletas, cruas. Deixou-nos o prazer de inventar a culinária.
Nasci em Minas e meu corpo está cheio de memórias de infância. Entre os prazeres da cozinha mineira estava o frango com quiabo, que se comia com angu e pimenta. Receita: um frango, cortado em pedaços. Pode ser, também, só coxa, só peito – de acordo com o gosto. Um quilo de quiabo macio.  Refogar o frango até dourar, em uma xícara de óleo ou azeite, com os temperos de gosto: alho, cebola, orégano. Cortar o quiabo em rodelinhas. Noutra panela, refogar muito bem o quiabo com caldo de limão, para tirar a baba. Se ainda restar baba, coá-la num escorredor de macarrão. Juntar o quiabo aos pedaços de frango, com dois tomates picados. Cozinhar tudo até o frango ficar macio. Alguns preferem o frango com o quiabo quase sopa, com bastante caldo, para ser tomado com colher. Com angu e pimenta. Ou arroz. De qualquer jeito é bom.
Das velhas cidades históricas de Minas Gerais, a que mais amo é Tiradentes. Frango com ora-pro-nobis, sopa de fubá com ora-pro-nobis. Foi em Tiradentes que encontrei o prato estrangeiro mais divertido. O dono do restaurante quis que o cardápio fosse em duas línguas – para dar um status internacional ao estabelecimento e lá escreveu na seção de carnes: “against file…”.
Duas tristezas. A primeira é não ter fome quando a comida está servida na mesa. A segunda é ter fome quando não há comida na mesa. A vida acontece entre essas duas tristezas. O encontro entre fome e comida tem o nome de alegria.
Há um ditado que diz: “Primeiro comer, depois filosofar”. Certo seria dizer: “Primeiro filosofar, depois comer”. Dessa forma, a dignidade filosófica da arte culinária ficaria reconhecida e estabelecida.
O sabor vive no lugar onde a visão morre. Os olhos não veem o que está dentro da boca.
O gosto não tem porquês. É gostoso porque é gostoso.
Comer com os olhos
Os nenezinhos têm este estranho costume de botar na boca tudo o que veem, dizendo que tudo é gostoso, tudo é para ser comido, tudo é para ser colocado dentro do corpo. O que os olhos desejam, realmente, é comer tudo o que veem. Assim dizia Neruda, que confessava ser capaz de comer as montanhas e beber os mares.
A criança horroriza o público. A criança ainda não aprendeu o papel, não usa máscaras, não participa da farsa, não representa. Seu rosto e seu eu são a mesma coisa. A qualquer momento, a verdade que não devia ser dita pode ser dita pela sua boca.
O cozinheiro
Lido com minhas palavras da mesma forma como o cozinheiro lida com a comida que prepara… Lições como festas gastronômicas…
O cozinheiro vive de palavras. O fogo está sempre aceso e as panelas sempre fervendo na sua imaginação. Seus olhos veem cores invisíveis, seu nariz sente cheiros ausentes, sua boca sente o gosto de gostos inexistentes. E o seu corpo é possuído pela comida que ele ainda não preparou. Sua imaginação é uma cozinha e um banquete. Ele vive no futuro, no prato que não existe. Ele é um ser escatológico. Só existe nas palavras – receitas…
A fome e o desejo
Se fôssemos escrever um livro com o título: Crítica da razão culinária é certo que o primeiro capítulo seria dedicado a fome. Mas a fome, sozinha, não basta, a menos que o cozinheiro saiba os nomes dos nossos desejos.
Rubem Alves, escritor, no seu livro “do Universo a jabuticaba”.

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