A ilha onde as pessoas tem se esquecido de morrer!

Os pesquisadores têm estudado atentamente os hábitos de habitantes de uma ilha grega, chamada Ikaria, com vista para o mar Egeu. Ela está a 56 quilômetros da costa da Turquia e produz invariavelmente seu próprio vinho e sua comida, nos quintais de suas casinhas lavadas de branco.
Desde 2008, os cientistas tentam entender como e porque os habitantes da Ilha atingem a idade de 90 anos numa taxa três vezes maior do que os americanos. Mais que isso, o que intriga, é que estão vivendo em média de 8 a 10 anos mais que os ocidentais, antes de sucumbirem a doenças crônicas, como o câncer e as cardiovasculares, e eles sofrem muito menos depressão e somente ¼ dos sinais de demência encontrados no Ocidente. Estudos estimam que quase metade da população americana com mais de 85 anos esteja sofrendo com alguns sinais de Alzheimer.
Em Ikaria, por algum motivo, as pessoas estão se auto gerenciando para permanecerem fortes e saudáveis até o fim!
Algumas explicações dos moradores da ilha:
       O ar e a água de alta qualidade
       Lá não se usa relógio. As pessoas acordam na hora que o corpo exige e há uma espécie de sesta vespertina… quando a cidade inteira aproveita uma “soneca”
       As pessoas lá não tem muita preocupação com dinheiro
       O hábito alimentar inclui o “chá da montanha”
       O Mel é usado como medicamento. E para curar tudo: de ressacas a gripes.
Como não poderia deixar de ser, a dieta desempenha um importante papel. Basicamente é composta de leite de cabra nos cafés da manhã, junto com vinho, chá de sálvia ou café (sim, os moradores tomam bastante café), mel e pão. No almoço quase sempre feijões (dentre eles, lentilhas e grãos de bico), batatas, saladas e vegetais (todos os que puderem ser colhidos nas hortas dos quintais). No jantar, leite de cabra e pão. Em ocasiões bem especiais, como Natal e páscoa, eles preparam pequenas porções de carne de porco, criado no quintal.
A maior parte dos chás consumidos pelos habitantes, o tal chá da montanha, são reconhecidos como tradicionais remédios gregos. A hortelã ajuda no combate a gengivite e aos problemas gastrointestinais; o alecrim é um remédio pra gota; a Artemísia melhora a circulação sanguínea. Especialistas em farmácia na Universidade de Atenas, também chama a atenção para as propriedades antioxidantes desses chás, que são fontes ricas de polifenóis, e também para seu efeito diurético. Talvez por tomarem estes chás todas as noites, os habitantes de Ikaria tenham tão baixa pressão sanguínea.
Em Ikaria há pouco consumo de processados e, como tudo vem dos quintais, os pesticidas não fazem parte da dieta lá. Todos os benefícios da dieta mediterrânea podem explicar um ligeiro aumento na longevidade dos habitantes, talvez um pouco mais de 4 anos quando comparamos com a dieta ocidental… mas por que, então, esse número é tão superior? Talvez a explicação esteja não no que eles estão comendo mas sim no que eles NÃO estão comendo. Especialista em dietas no EUA e escritor de livros, o nutricionista Gary Taubes afirma que eles vivem tanto pois adotaram, por tradição, uma dieta vegetariana. Ou pode ser a ausência de trigo e açúcares refinados. Um outro estudo na Universidade de Atenas mostrou que as pessoas lá consomem cerca de 6 vezes mais feijões por dia que os americanos, comem peixes 2 vezes por semana, carne 5 vezes ao mês, bebem de 2 a 3 xicaras de café por dia e consomem cerca de ¼ do açúcar refinado consumido na américa. A pesquisa também mostrou que eles estão consumindo altas doses de azeite junto com 2 a 4 taças de vinho por dia! Este mesmo grupo de pesquisadores gregos também fez um estudo sobre a importância das “sonecas”, tão frequentes na Grécia. Neste estudo ficou demonstrado que aquelas pessoas que tiram sonecas eventuais, têm uma redução de 12% do risco de doenças coronárias mas aquelas pessoas que, como os habitantes da ilha, tiram uma sonequinha diária tem seu risco reduzido em 37%. Em um outro estudo, ela identificou que 80% dos homens de Ikeria entre 65 e 100 anos afirmam fazer sexo regularmente.
Um outro ponto importante, destacado por um dos moradores, é a sensação de conexão e segurança, compartilhada pelos moradores da Ilha. Ali muitos se conhecem, e tem a liberdade de vigiar a vida de outros. Há uma falta de privacidade que, no caso da ilha, torna-se outro ponto positivo para a longevidade. Ele ainda diz que  o segredo pode ser que comida lá é sempre combinada com bom bate-papo.
O fato é que os moradores de Ikaria estão vivendo mais do que todos os vizinhos (Inclusive de ilhas a menos de 9 kms). Vizinhos que respiram o mesmo ar, bebem a mesma água, comem iogurte e bebem vinhos, não chegam nem perto da idade dos habitantes da ilha. Isso é o que a faz tão intrigante.
Parece que há uma sincronia de diversos fatores contribuindo pra isso. É muito mais fácil ficar até tarde na cama, se todos os vizinhos estiverem fazendo o mesmo. E se todos dormem após o almoço, por que você ficaria acordado numa “cidade fantasma”? Ajuda muito que a comida mais barata seja também a mais saudável, e que seus ancestrais tenham caprichado tanto nas receitas para deixá-las tão saborosas! Você vai plantar uma horta, porque é isso que seus pais faziam e o que todos os seus vizinhos estão fazendo. As crianças vão pensar duas vezes em praticar coisas erradas já que são vigiadas por todos os vizinhos, como numa grande família. No final do dia, você vai tomar uma xicara de chá junto com seu vizinho, porque é isso que ele estará servindo quando for visitá-lo. Muitas taças de vinho serão sorvidas depois do chá, mas você estará fazendo isso com seus amigos. Todos estes fatos, e muitos outros provavelmente, estão amarrados com a longevidade.
Aqui, no ocidente, estamos subordinados e manipulados por uma indústria milionária que não economizará esforços para fazer-nos comer a “comida certa” e fazer o exercício “certo” para ficarmos mais saudáveis, mais magros e vivermos mais! Mas essas estratégias raramente funcionarão. O problema é que é muito difícil mudar hábitos individuais, uma vez que todo o entorno mantem-se o mesmo.
Devagar, lá em Ikaria, os hábitos começam a mudar. Os jovens já preferem os refrigerantes aos chás e as próximas gerações provavelmente não viverão tanto quanto as anteriores.  Ao menos ficarão os relatos deste repórter que afirma que os moradores não têm a mínima idéia de como se mantêm vivos, e saudáveis, por tanto tempo. Os idosos acima dos 90 anos, quando perguntados, tem a resposta na ponta da língua “ Nós simplesmente esquecemos de morrer”.
Chef Thais Tezza
Este artigo é baseado numa publicação de Dan Buettner, No New York Times de 28/10/2012, parte de uma reportagem para a revista National Geographic.







Deixe seu comentário